Em 2026, Brigada Militar já salvou 168 mulheres do feminicídio
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O atendimento a cerca de nove mil chamados pelo telefone de emergência (190) relacionados às ocorrências de violência doméstica, resultou no salvamento de 168 mulheres vítimas de tentativas de feminicídio de janeiro a setembro de 2026. Ao mesmo tempo, as Patrulhas Maria da Penha da Brigada Militar seguem atuando na prevenção da violência doméstica com ações voltadas à conscientização, à educação e ao acompanhamento de 16.041 mulheres com Medidas Protetivas de Urgência (MPUs).
Durante o patrulhamento ostensivo ou chamada por populares, vizinhos, primos, irmãos, filhos, cunhadas, entre outros, além dos pedidos de socorro feitos pelas próprias vítimas, a Brigada Militar atendeu as 168 mulheres no local dos fatos, desde a própria residência da vítima, o lar da família, o endereço de trabalho, em via ou praça pública. Os crimes cujos suspeitos destacam-se os maridos, companheiros, namorados, “ex”, irmãos e filhos tiveram distintas motivações, predominantemente declaradas a não aceitação de fim do relacionamento e ciúmes.
Em muitos casos, as vítimas não tinham sequer um registro de boletim de ocorrência contra o agressor. Mas, quem trabalha neste tipo de socorro emergencial, como a Soldado PM Bianca Borges (42° BPM), alerta que humilhações e ameaças também são formas de violência. “O normal é haver respeito nas relações humanas. Quando uma discussão ultrapassar o limite do respeito, pode ser uma situação de violência psicológica ou moral,” explicou. A primeira caracteriza-se por ameaça, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância, perseguição e, a segunda, por xingamento, acusação falsa, exposição da vida íntima ou críticas que afetem a honra. Não raro a vítima desse tipo de violência acaba sendo confundida pelo agressor com explicações de “brincadeira” ou pedidos de desculpa.
Os tipos de violência contra a mulher incluem ainda o controle do dinheiro, documentos e bens, a chamada patrimonial. Incluem ainda a violência sexual e a física que são as mais reconhecidas. Por fim, a violência vicária integrada à Lei Maria da Penha pela Lei 15.384 deste ano, é aquela praticada contra filhos, familiares e pessoas próximas à mulher para causar-lhe grande sofrimento. Em todas essas situações, vítimas ou testemunhas devem acionar o número de emergência da Brigada Militar (190) e buscar informações sobre leis e direitos por meio do telefone 180.
Cárcere privado
A orientação para procurar ajuda quando o respeito faltar se justifica tanto pelos 61 feminicídios registrados em 2026 no Rio Grande do Sul como pelas ocorrências de alta complexidade que os Policiais Militares, ao lado de outros agentes públicos têm enfrentado. No primeiro sábado deste mês (03/10), um homem com o poder de um grande arsenal bélico causou um evento crítico em Espumoso, área do Comando Regional de Polícia Militar Planalto (CRPM-P). Do início da ocorrência às 21h40min até a rendição às 02h34min no domingo de eleições (04/10), a Brigada Militar atuou com nove equipes no total, provenientes de Espumoso, Alto Alegre, Campos Borges, Soledade, Agência Local de Inteligência do 38° BPM, CRPM-P, Comando do 38° BPM, Força Tática do 38° BPM e uma do Batalhão de Operações Especiais (BOPE). Essa atuação integrada exigiu elevado grau de concentração, equilíbrio emocional e constante capacidade para avaliar a situação mobilizando os esforços necessários para desescalar a violência.
O relato de um dos filhos do casal é de que ele, seu irmão adolescente, e a mãe vinham sofrendo episódios de violência psicológica, causados pelo pai e marido, até então sem violência física. Porém, sentiam-se ameaçados já que o agressor possuía várias armas em casa. “O filho mais velho disse que tentou fazer com que a mãe denunciasse, porém ela não prosseguiu. É fundamental a mulher agir e receber o apoio de familiares e vizinhos, as testemunhas, diante de sinais de violência. Nenhuma forma de violência pode ser normalizada, quando dizem ‘deixa passar’, ‘foi só hoje’, isso pode evoluir para situações como essa,” revelou a 1° Tenente PM Adriana Moraes Moreira, que participou da negociação.
A Tenente contou que, durante a negociação, o agressor repetia que havia sido “só uma discussão de casal” e que estaria “tudo bem”. Mas, o andamento dos fatos expôs uma situação de extrema gravidade com o agressor armado e submetido a esposa a intenso sofrimento físico e psicológico, mantendo-a no interior da residência em cárcere privado, sob constante ameaça de morte e causando-lhe diversas lesões. “Foram momentos de extrema tensão e angústia, marcados por gritos de pedido de socorro de uma das vítimas, enquanto outros sinais preocupantes permaneciam no silêncio, exigindo da equipe serenidade, controle emocional e permanente prontidão para agir. Com adequada coordenação e a soma de esforços, obtivemos um desfecho positivo, culminando na preservação das vidas dos reféns e do próprio agressor,” asseverou.
Arsenal bélico
“O agressor estava muito violento, mas conseguimos acalmá-lo, o que denominamos estabilização da crise, até a rendição, quando saiu da residência com as mãos para cima. A negociação possibilitou acalmar os ânimos no local enquanto viabilizava-se as possibilidades de intervenção e de execução de um plano emergencial, se fosse preciso. Numa das tratativas de rendição, a esposa conseguiu fugir. Ela foi muito ferida por ele e teve um braço fraturado. Havia ainda uma mulher em um anexo à residência que também foi salva. Com todo aquele arsenal bélico, o risco era de ser um evento crítico de múltiplas vítimas e feridos,” definiu o Policial Militar da equipe do BOPE, cuja identidade está preservada. Após o controle da ocorrência, as buscas no imóvel levaram à apreensão de seis armas de fogo, sendo uma espingarda calibre 12, duas pistolas, três rifles calibre .22 e cerca de 14 mil munições. De Porto Alegre dirigindo-se para Espumoso havia mais três equipes do BOPE, formada por Atiradores Policiais de Precisão, negociadores policiais (entre eles, uma psicóloga) e uma equipe de intervenção tática.
As sete horas de atuação integrada resultou na prisão do agressor, um homem de 51 anos, e no resgate de três pessoas do interior da residência e uma que estava no anexo, as quais foram encaminhadas ao atendimento médico. A mulher vítima de tentativa de feminicídio já solicitou MPU. O marido preso foi encaminhado para atendimento médico e, posteriormente, apresentado à Delegacia de Polícia de Espumoso para o registro da ocorrência e demais providências legais. A ocorrência teve ainda o apoio da Polícia Civil e suporte do Corpo de Bombeiros Militar e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU).
Texto: jornalista Eliege Fante, servidora civil na PM5/BM